RELATO BERLIN MARATHON 2012 – por Leonardo Estrella

Missão 1 – Berlin Marathon

RenatoQuando cheguei no “ap” de Berlin, após o jantar e vi cada mensagem no Facebook e com elas o envolvimento na prova de cada um tive o sentimento da generosidade, da fidelidade e do amor que é a base da família Sprint.

Quando me inscrevi em Berlin, decisão solitária, tinha e exata noção do que essa maratona significaria na minha história. Contudo, não imaginava que a intensidade das emoções seriam na magnitude que foi.

Na pureza da inocência imaginava que 42 km era replicar 21 km, imaginava que treinando com as planilhas de Paulo Domingos tudo é possível, que com a experiência de uma família experimentada tiraria de letra.

A Escolha
Em 2012, faria minha primeira Maratona. Pedido do Doutrinador: “segundo semestre, achas que maratona é brincadeira?”. A noite, sozinho, me inscrevi em Berlin. Avisei a Flávia: iremos para a Alemanha. Ela: “como assim?”. Avisei o Paulinho: será em Berlin, final de setembro. Me treina pra baixo de quatro horas. Comuniquei meu amigo Luchi: estou inscrito em Berlin. Ele: “eu também”. Pura coincidência.

Os treinos iniciaram com a antecedência necessária. Tudo nos conformes. Rodando bem, volume crescendo, novas marcas atingidas, confiança a mil. Feliz pelo novo objetivo. Ansioso pela meta de cumprir um belo desafio.

Contudo, após parte da cronologia sendo executada apareceram dores no lado esquerdo do abdômen próximo a virilha. Diagnóstico: lesão labral em estágio adiantado. Ao ler o resultado da ressonância pensei que estava eliminado das corridas e que teria um futuro incerto. Balde de água fria. Berlin sob júdice. Deprê, sofrimento, pânico, dúvidas, incertezas….

Um mês de molho. Luchi levantando meu ânimo, Flávia a mais fiel companheira no meu lado em cada passo, Jana em alerta, Ana ajudando em tudo e Paulinho gestor eficaz dos momentos de crises. Amigos da Sprint do meu lado.

O drástico diagnóstico foi sendo triturado pelo exercito formado por uma equipe multidisciplinar de profissionais dedicados, aderentes a causa e responsáveis e competentes. Cada um de vocês cumpriu importante papel nesse quebra cabeça. Ajuste fino é pouco pra turma Paulo Domingos (treinador), Jana Porto Alegre (nutricionista), Ana Márcia (médica), Daniel Carvalho (ortopedista), Lúcio Toledo (ortopedista), Ana Luisa (GDS), André Cruz (fisioterapeuta) e Jorge Bortoluzzi (shiatsu).

Dedicação e foco total. Objetivo: correr para chegar bem em Berlin. Receita: bike e elíptico, volta gradual, fisio e terapias, nutrição e muitas bagas. O resultado? Incógnita.

Aprender a conviver com a dor, a dosar, respeitar, abdicar, baixar a cabeça. Não existe maratona sem sacrifícios, se existe são para poucos escolhidos, todavia duvido muito.

Fui renascendo. Cada treino chato na academia, cada sessão de fisioterapia, na peregrinação pelas máquinas de ressonância, nas idas e vindas das clinicas médicas, no cardápio limitado, no colo da companheira, nas lágrimas da solidão…

Três momentos marcaram esse estágio: o treinador pedindo para confiar e deixar ele gerenciar, a foto que a Flávia publicou em que concluía que qualquer que fosse o momento estaria ao meu lado e o Luchi com graça me ouvindo chorar ao telefone. A força que vocês me passaram até eu desconheço.

Bom, faria Berlin em qualquer condição!

O renascimento foi dia-a-dia. Com um passo de cada vez, antecipando etapas se assim fosse possível. Fui vencendo a dor, fui rodando, fui emagrecendo, ganhando confiança, deitando na maca, fazendo exercícios específicos, me submetendo a momentos de dor, abraçando amigos, lutando, sorrindo e chorando.

Na montanha russa da maratona o importante é deixar o lupping pro dia da prova. Assim que planejamos.

Os treinos vinham crescendo, as meias voltaram a fazer parte das planilhas e a confiança estava de volta! No entanto, um “muro” apareceu imponente, vertiginoso. Como vencer um treino de 30’5km de manhã, seguido de 10km no final de tarde? Pela primeira vez depois da lesão temi. E o pior a Flávia que seria meu suporte nos treinos e na alimentação teve compromisso inadiável em família. Estava sozinho. O medo seria voltar a sentir a dor que me parou. Medo que me acompanhou até a hora do treino. Fiz a primeira sessão, a venci. Me alimentei e dormi. Segunda sessão. Vento de Floripa entrou rasgando, poucas pessoas na rua. Lá vou eu. Os 10km viraram 8,5km, no km 4 parei para alongar, pois a dor na posterior da coxa estava acima da média. Cena repetida a cada km. Medo de lesão, temor de ter que parar às vésperas da prova. Treino de sábado feito. Domingo marcava mais 10km. Impossível. Avisei o chefe, que não aceitou. Me buscou em casa e fez eu treinar. A dor sumiu após a metade do treino. Pode? Pôde. Volume principal feito.

Depois foi manter os treinos, as terapias, a alimentação correta, a cabeça boa. Fiz até prova antes do principal embate.

Enfim, Berlin chegou. Confiante e inexperiente pisei numa terra organizada, limpa, séria e determinada. Tudo como devemos ser numa maratona. Entretanto, desconhecia o que era uma maratona, embora pensasse que tiraria de letra. Planos A, B e C traçados pela mente estratégica de Paulo Domingos e pela nutricionista sempre atenta.

Quando pisei na Alemanha entendi que eu não tinha escolhido Berlin para fazer a prova, mas foi Berlin que me escolheu. Escolheu porque entendeu, como um das cinco maiores do mundo, a mais rápida e praticamente plana, ela seria minha primeira escola. “Aqui, venha aprender corredor”.

E como definir essa professora? Bom, gelada, fria e cética como seu povo. Dura como sua política e capaz de reerguer um atleta como fez em sua própria história. Nasci de novo como atleta, em Berlin. “Guardastes esse momento cidade modelo, nunca te esquecerei”. Te respeito hoje, muita mais que nos livros das guerras, da história, do separatismo e do racismo. Um pedaço do muro que separou o ocidente do oriente, o social do capital, caiu!

Grande prova, que machuca depois dos 30km, que ensina a humildade após aos 35km, mas que nostalgia no calor da chegada. Foram inesquecíveis e oficiais como sua lei 3h42min42seg de glória. Cheguei, como escreveu uma amiga, berrando Sprint e com uma das mãos no lado esquerdo do peito. Que prova. Me fez chorar algumas vezes. Multidão, bandas, bandeiras, cenários, dor, suor e lágrimas.

À vocês em especial:
Deus, companheiro da melancolia, Senhor da cura e direção do caminho;
Flávia, fiel, amiga, ajudadora, amante, esposa, doce mulher;
Paulo Domingos, amigo, estrategista, psicólogo, idealista e vencedor;
Jana, profissional dedicada, presente e atualizada;
Daniel Carvalho, médico casca grossa, cirurgião por hobby, Ironman por profissão;
Luchi, companheiro incondicional, alegria a cada dia e atleta exemplo. Demorarei um pouco e muito para te passar no km 37;
Portuga, mestre, mito, professor e profeta;
Família Sprint, pela torcida, carinho e parceria;
Berlin, gênesis da minha história em maratonas.

Léo, enfim, maratonista.