NY VIVE E RESPIRA O EVENTO – por Luis Fernando Luchi

Foto Luchi2NY vive e respira o evento; é corredor por tudo que é lado. Em todo canto tem gente treinando, comprando, comendo… No dia da prova estava bonito e fazia frio, por volta de 5 graus, no final por volta de uns 12/14 graus. Não estava nervoso, mas estava ansioso com a prova e pra saber se o que treinei seria suficiente pra fazê-la do jeito que eu pensei. Pegamos o ônibus no hotel as 6h e tocamos pra largada, que fica fora de Manhattam (pelo menos 42km longe de onde estávamos), mais precisamente em Staten Island. Segundo informações do site oficial do evento, pouco mais de 47 mil atletas estavam inscritos na prova. Todos os corredores chegam pelo mesmo lugar, chegam de ônibus, sem tumulto ou engarrafamento. A sinalização é absurda, com telões e auto-falantes dizendo a toda hora o que os corredores devem fazer. Depois, antes da largada já um momento marcante. O abraço no Guto e as palavras dele pra mim, agradecendo o “apoio e a parceria”. O organização divide a largada em “3 ondas”, de acordo com o tempo previsto pra chegada, informado quando da inscrição.

Dentro de cada onda, há 3 cores, azul, laranja e verde, para fins de distribuição na ponte da largada (que tem dois andares e 3 pistas de cada lado). Com 50 minutos antes da largada, você tem que ir até o seu “corral” e ficar aguardando ali a hora de ir pra ponte. Esses “corrals” são espaços que eles separam de 1000 em 1000 corredores, também de acordo com o tempo previsto pra chegada. A ideia é dividir bem os grupos e fazer com que os mais rápidos não tenham problemas. Os casacos começam a ser atirados para os lados, numa aérea própria para isso. Depois, tudo é doado para instituições de caridade. Na cabeceira da ponte, alinhados pra largada, pensa num momento emocionante: tudo que você passou no ano e treinou vem na cabeça, todos os treinos, toda a galera da Sprint, todas as provas, individuais e em equipe, todas as mensagens e emails que recebi, o apoio da família, o profissionalismo com amor do Paulinho, o acidente e a recuperação dele; os 5kg que eu perdi pra estar ali, enfim, tudo aquilo havia acontecido para que esse momento chegasse. E chegou. Hino do Salve a América cantado me arrepia de lembrar até hoje. Depois um locutor, aos gritos, mete um “ARE YOU READY TO RUN??? ARE YOU READY TO RUN”. A adrenalina desse momento é demais. Após uma resposta não menos gritenta da galera, sinalizando estar pronta, tiro de canhão e o mesmo cantor do hino mete um “Start spreading the news”. Isso mesmo, New York New York, do Frank Sinatra, volume 18. É demais!

Passado o relógio, demora uns 2 minutos que mal se consegue andar, é tipo um funil até chegar as 3 pistas da ponte. Isso, aliado a subida forte da ponte no primeiro 1,5km, fizeram com que o rodasse o primeiro km pra 5:35, fora do previsto, mas dentro da normalidade pelas condições que se apresentaram. A partir dali, com a descida da ponte, consegui encaixar um ritmo bom. Como eu ouvi por lá, a maratona de NY parece um jogo de vídeo game, que você vai passando de fase e ela vai ficando mais difícil. Assim, NY não é uma maratona pra você pensar em fazer grandes tempos; é um evento pra curtir. Seja qual for o tempo que você cruze a linha de chegada, ele deve ser comemorado, e muito. Durante todo o percurso tem muita gente nas ruas. Estima-se que dois milhões de pessoas vão às ruas prestigiar o evento. Todo mundo com cornetas, bandeiras, aos berros, incentivando todos que passam; todos querem dar um hi-5 em ti. Se passar por perto das calçadas é inevitável e muito bacana. Há também 160 bandinhas de música tocando pelas calçadas ao longo de todo o percurso; vários telões, onde se via, ora a própria imagem de quem por ali passava correndo, ora mensagens de parentes e amigos. Após a subida inicial de 1,5km na ponte, logicamente, tem a descida; e é uma boa descida, estilo consolação da SS. Ali, se a pessoa não tiver focada e ficar controlando, se entrar na empolgação e descer a lenha, pode te custar a prova, porque vai faltar lá na frente. Segurei a onda num até então confortável pace de 4:30/4:40.

Passei nos 10km com mais ou menos 47 minutos de prova. Estava me sentindo bem, muito bem. Continuei mais ou menos nessa batida até a “meia”, que é numa ponte, com uma subida curta, mas bem pesadinha. Fechei a meia com 1h41m e ainda estava me sentindo super bem. Já comecei a curtir a prova e pensar: “vai dar tudo certo”. No km 25, a Queensboro Bridge, o único lugar da prova que é fechado e não tem torcida. Uma ponte fechada, parecendo um túnel, com uma subida pesada (quase que uma brigadeiro da São Silvestre) de quase 1km. Consegui subi-la a 5:35. Logo após essa subida, quando o cara pensa no cansaço, desaba numa Manhattan alucinada, barulhenta, com um mar de gente nas avenidas, e aí, nem lembra do cansaço. Percorre-se uma First Ave lotada, por uns 5 ou 6km Até Chegar no bairro do Bronx. A partir daí o pace confortável já passou a ser o 5:00; não dava mais pra manter daquele jeito, mas ainda sem sofrimento. De lá, algumas curvas, e volta pela 5ª. Avenida até chegar no Central Park. Ah, peraí. 5ª. Avenida? 3km subindo. Subida leve, é verdade, mas depois de 35/36km??. Nessa subida também não consegui manter o pace e acabei por fazê-la pra (os 3km) pra 5:08, 5:03 e 5:25. Depois, ‘seta’ pra direita e entrada no Central Park, não menos lotado, com mar de corredores, torcedores e folhas, o que deixa o cenário inesquecível. Caraca, faltam só 4km, senta a bota Luchi. Vamos manter, porque acelerar, não dá. Nesse momento, consegui avistar toda a minha família, não menos empolgada que a multidão, com bandeiras, camisa, apito, etc. É legal ‘bagarai’ e pareceu que botaram gasolina com red Bull e whisky no meu tanque. Não deu nem tempo de querer pensar em desistir, ou “o que eu to fazendo aqui?” que parece ser tão comum nesse tipo de prova. Apesar de a segunda metade da prova eu ter feito com quase 8 minutos a mais que a primeira, quando eu vi, já tinha acabado o Central Park, passado pela rua 59 e adentrado ao Central Park de novo, no sentindo inverso para os últimos 400m. Agora, pensa num ambiente contagiante e emocionante. Arquibancadas lotadas e vibrantes. Tem que ser forte pra não chorar. E eu não fui. Tempo de prova: 3:29:40 – 5.377 colocado no geral, num total de 47.438 corredores; 830, na categoria 35-39, num total de 4863; 44 dos brasileiros, num total de 372.

Agora, a dispersão. Concluída a prova, você ganha um lanche generoso; uma coisa, estilo um cobertor, feito com papel alumínio, pra se agasalhar, e, vai caminhando lentamente até o caminhão que estão os seus pertences. Procurei uma estação de metrô. Depois de 5min pra descer 10 degraus, fui procurar o dinheiro pra pagar o metrô quando o guarda, vendo a medalha, cravou: “you don´t need coins; you have a medal. Enjoy your ride”. Achei legal isso e depois eu soube que várias e várias situações em NY os corredores não pagam depois da prova ou tem alguns privilégios. Claro que coisas básicas e baratas, como metrô, cafés, águas, etc, mas que são bastante simpáticas. Você não pega fila nos restaurantes também, eles te passam na frente, basta estar com a medalha no peito. É claro que andamos toda a segunda com a medalha no peito. Ah, também vale destacar que 2h depois da prova seu resultado está no site da prova. E ainda, no dia seguinte, você recebe um email assinado pelo presidente do NYRR, Mary Wittenberg. Todos os corredores recebem essa mensagem do organizador da maior corrida de rua do mundo: “we call you champion”.

Pra finalizar, eu tenho a prazerosa obrigação de agradecer ao Paulinho, principal responsável por tudo isso. O cara me faz correr; e gostar de estar correndo. Completar uma maratona, sem sofrimento, era tudo que eu sonhava, e, ele, com suas planilhas, conseguiu com maestria me ajudar realizar um sonho, exatamente como planejado. Além da competência, é um amigão, sabe a hora do carinho, do esporro, do “não”, do sim, enfim, um cara que eu admiro e respeito muito, como pessoa e como treinador. Essa conquista eu dedico pra ti meu amigo, por tudo que tu és e por tudo que tu passou recentemente. A toda a minha família e amigos, que estiveram juntos nessa “encrenca”. Por: Luis Fernando Luchi